Portões que Estão Sempre Abertos
Salomão escreveu de quem não tenta se desfazer de suas más qualidades: "Menosprezam
os caminhos da moral e da correção".
Algumas pessoas desejam seguir os caminhos do
bem mas não sabem o que é bom para elas; desejam elevar-se, mas não conseguem
fazê-lo. Isto pode ser explicado de duas maneiras:
1) Há quem não conheça os próprios defeitos ou não saiba distinguir entre seus defeitos e qualidades. Se uma pessoa procura por outra mas não a conhece, jamais a encontrará,
mesmo que procure sem trégua e em todos os lugares. Poderá até passar por ela várias vezes, mas não a reconhecerá.
O mesmo se dá com quem não conhece os próprios
defeitos: não consegue aprimorar-se, ainda que se interesse em seguir o caminho correto.
2) Há quem conheça os defeitos que possui, mas não se esforça em tratar de corrigi-los
nos locais apropriados. Assim, não consegue emendar-se. Quando uma pessoa a outra
conhece mas não a encontra, é porque não sai à sua procura ou, então, não a busca com o devido empenho.
O rei Salomão escreveu: "A prata testa a língua do justo".
Podemos entender este versículo do seguinte modo: Se alguém vier saldar os débitos com seu credor com certa quantidade de prata, mas se o credor não conhecer os pesos e medidas usados para determinar o valor da prata sofrerá prejuízos por não saber avaliar o metal precioso ou reconhecer seu grau de pureza. Mesmo se for um especialista em prata mas na maneira de pesá-la não prestar a devida atenção, poderá receber seu pagamento em prata pura mesclada a metais baratos. Em todos os casos, será prejudicado. Mas se for um especialista e estiver atento à pesagem, será recompensado com a quantidade certa de prata pura. Ao comparar a língua do justo ao teste da prata, o rei Salomão quis dizer que o homem justo deve saber reconhecer a diferença entre o bem e o mal e saber pesar o valor de cada virtude humana, observando atentamente cada uma delas e usando todas as suas forças físicas e mentais para abster-se das tolices do mundo, para purificar sua alma e preparar-se para Deus, como está escrito: "Remove a impureza da prata e tomará forma
na mão do artesão" (ibid. 25:4). Aí, ele implica que somente a remoção das
impurezas permite à matéria ser moldada.
Existe um outro tipo de pessoa, caracterizada por sua conduta pouco estável,
inconsistente: ora comporta-se de determinada maneira, ora de outra. Assemelha-se ao caminhante que muda de trilha várias vezes a caminho de certa cidade, dando voltas e se confundindo, até não mais encontrar seu destino, como disse o rei Salomão: "A labuta dos tolos os exaure como o caminhar de quem não sabe chegar até a cidade". Devemos nos apiedar das pessoas que vivem mergulhadas nas futilidades da vida e orientá-las para que tomem o caminho certo e pesem suas ações de maneira correta e justa. Se as ensinarmos a trilhar o caminho correto, reconhecerão desde o início que trata-se da rota que os levará
de encontro a um lugar fértil e prazeroso, onde as benesses são abundantes. Esta trilha é o temor a D'us, propósito supremo de todas as ações humanas. É a pergunta que o Eterno faz na Torá, dirigindo-se à nação como um todo e cada indivíduo em particular: " E agora, Israel, qual é a coisa que pede o Eterno, teu D'us, de ti? Senão que temas ao Eterno, teu D'us".
Nenhum ato é perfeito se não for acompanhado do mais puro temor a D'us. Por isto é
importante alertar Seus filhos que todo aquele que deseje aumentar o número e a
qualidade de suas boas ações, deverá imbuí-las do temor ao Eterno, o elo que une todas as virtudes. Podemos fazer uma comparação com o fio que une as pérolas e forma um colar. Se cortado o fio e uma pérola deslizar, todas as outras a seguirão. O mesmo se dá com o temor ao Eterno: ele é o vínculo entre todos os traços do caráter humano. Sem ele, todas as virtudes se esvairão, uma após a outra. E, sem nossas virtudes, não poderemos ter a Torá e as Mitsvót (mandamentos), pois toda a Torá depende do aperfeiçoamento do caráter humano.
O homem sábio pode transformar todos os traços negativos de seu caráter em qualidades, mas o tolo transforma suas virtudes em defeitos. Quem caminha na escuridão, sem refletir sobre seus hábitos, põe todos os seus méritos a perder. Exemplo disto é o arrogante, que se acha melhor que seus colegas, menosprezando-os e tentando governá-los, denunciando-lhes os defeitos e divertindo-se às custas do infortúnio alheio. Uma pessoa como esta se assemelha a um vinho raro vertido sobre um barril sem fundo. O bom vinho se perde – a menos que reparemos o barril. Assim é o arrogante. Ainda que estude a Torá, acaba perdendo seus méritos em função de sua soberba, a menos que procure corrigi-la.
Poucos homens no mundo reconhecem a Verdade. Outros não são suficientemente sábios para reconhecê-la. Tal e qual o amputado que não pode subir uma escada, a pessoa desprovida de senso de compreensão não pode galgar os degraus do conhecimento. Existem também pessoas inteligentes que utilizam esta condição para conseguir tudo o que puderem no plano material e alimentar suas paixões, hábito que cultivam desde a juventude e do qual não conseguem livrar-se na idade adulta, caindo presas da própria luxúria e dos maus hábitos. Outros entendem o bastante para reconhecer que devem trilhar o caminho da bondade e que desejam fazê-lo. Mas como não encontraram homens justos para lhes ensinar como proceder, continuam a tatear no escuro. Assemelham-se à pessoa que tem um tesouro oculto em sua casa mas não sabe, e vende a casa.
Observe os diferentes traços do caráter humano: cada um deles nos induz a tomar tipos diferentes de atitudes e o Iétser Hará (inclinação malévola) está sempre pronto a nos levar a escolher o caminho errado. Com o quê isto se parece? Com um homem que viaja pelo
deserto e se depara com animais selvagens, predadores. Se ele não mantiver os olhos
bem abertos e ficar atento o tempo todo, estes animais poderão devorá-lo em segundos. O mesmo acontece com o homem: as más qualidades, como a luxúria, o orgulho, o ódio, a raiva etc, circulam sem parar dentro do coração. Se ignorá-las, se não tentar remediar a situação, eliminará a luz da verdade de sua alma e seguirá tateando no escuro.
Quando nasce, o homem é a mais fraca de todas as criaturas, física e mentalmente. Todas as outras começam a caminhar, a se alimentar e a cuidarem de si mesmas logo no início da vida. O ser humano precisa de atenção ininterrupta por um longo período para não perecer. Assim, da mesma forma que precisa aprender a atender aos chamados do seu corpo, deve treinar seu espírito, aperfeiçoando sua compreensão e conhecimento, para que se habitue a trilhar sempre o caminho do bem. Sem um mestre para educá-lo, acabará
assemelhando-se a um animal; seu coração não passará de uma tábua lisa onde se pode gravar qualquer coisa. Se tal pessoa cair aproximar-se de um tolo, este rabiscará nela coisas sem sentido, até inutilizá-la por completo. Mas, junto a um sábio, terá gravado neste mesmo coração tudo o que precisa saber para manter-se saudável, para cumprir do melhor modo os deveres para consigo mesmo e para com os que dele dependem, fazendo-o de maneira correta e constante. Assim é o coração humano: os tolos desenham nele figuras vãs e ilusórias, preenchendo-o com pensamentos fúteis e vazios, mas os sábios nele escrevem as palavras de D'us, fundamentos da Torá e das Mitsvót, do conhecimento e das boas virtudes, até fazerem-no brilhar como o azul do firmamento.
Fonte: A Psicologia dos Justos

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