POR QUE OS ENLUTADOS REZAM KADDISH?
Itgadál Veitkadásh Sheme Rabá, “Que o Grande Nome seja enaltecido e santificado”.
Essa expressão aramaica inicia uma das mais poderosas orações milenares
do povo judeu. Inspiradas no livro de Ezequiel, as palavras expressam a
visão do profeta sobre um tempo em que D`s será exaltado e santificado
aos olhos de todas as nações. A reza tem origem nas casas de estudos,
onde era recitada depois da leitura ou do estudo da Torá, o Pentateuco.
Embora não se refira de forma expressa à morte, a oração tornou-se a
principal homenagem litúrgica realizada pelos enlutados aos seus
familiares falecidos. Por onze meses consecutivos, judeus homenageiam
seus mortos nas três orações diárias por meio do Kaddish Iatom
(literalmente, a Santificação dos Órfãos).
Diversas teorias foram
elaboradas para explicar a conexão que se criou entre essa oração e o
luto. A primeira associação do Kaddish como uma reza dos enlutados
aparece no século XIII em uma obra legislativa denominada Or Zarúa. Uma
das explicações sustenta que a santificação do nome de D`s no momento de
perda foi estabelecida como manifestação da nossa crença na justiça
divina. Em um momento em que muitos se revoltam e se afastam de D`s,
somos convocados a louvá-Lo como forma de demonstrar nossa fé, apesar da
impossibilidade de compreender Seus caminhos.
O Talmude, obra que
compilou estudos sobre o texto bíblico até o século vi, afirma que “o
filho tem o poder de absolver o pai”. Segundo essa leitura, o objetivo
do Kaddish seria elevar a alma da pessoa falecida. Quando os familiares
enlutados, em especial os filhos, glorificam o nome de D`s, auxiliam no
julgamento pelo qual passam os pais diante de D`s, logo após seu
falecimento. A demonstração de fé dos descendentes agrada o tribunal
celestial diante do qual passam os ascendentes.
Conta uma lenda que
Rabi Akiva, que viveu no século II, viu um homem carregando uma pesada
carga de lenha. Akiva perguntou: “Por que você precisa cumprir essa dura
tarefa? Se você for um escravo, vou libertá-lo comprando você de seu
senhor. E se você o faz porque é pobre, vou ajudá-lo a deixar de ser
pobre.” Mas o carregador respondeu com temor: “Peço que me deixe ir para
que aqueles por quem trabalho não fiquem zangados. Eu sou uma dessas
almas infelizes condenadas a arder no inferno. A cada dia me enviam para
trazer a lenha para o meu próprio tormento.” Rabi Akiva então
questionou: “Não existe um modo de libertá-lo desse suplício?”. “Sim”,
respondeu o homem. “Ouvi dizer que se meu filho pequeno disser em
público Itgadál Veitkadásh eu ficaria livre deste castigo.” Rabi Akiva
procurou então o filho daquele homem, ensinou ao menino o Kaddish, a
criança pronunciou as palavras em público e a alma do pai, liberta,
alcançou o descanso eterno. Depois disso, o homem apareceu para Rabi
Akiva em um sonho e disse: “Seja a vontade de D`s que você possa
descansar sempre em paz, porque você foi responsável por eu ter
encontrado a paz”.
Embora o judaísmo não se dedique muito a
especular sobre a vida após a morte, a tradição judaica afirma nessa
lenda e em muitas outras que os laços estabelecidos em vida entre pais e
filhos permanecem mesmo depois da morte. O Kaddish é uma manifestação
pública contundente desse vínculo eterno.
O Kaddish deve ser dito
sempre na presença de um minián, um quórum mínimo de dez pessoas
necessárias para uma santificação digna do nome de D`s. Graças a essa
exigência, o enlutado fica cercado por sua comunidade e seus familiares e
vivência seu luto sempre amparado por pessoas queridas.
Nada
desafia mais a nossa fé do que a perda de uma pessoa querida. Quando se
trata de uma pessoa jovem, um indivíduo que morreu de forma trágica ou
alguém que passou por um período prolongado de sofrimento, nossa crença
em Deus é ainda mais desafiada. Mesmo diante do falecimento de uma
pessoa idosa que viveu uma vida plena, o sentimento daqueles que ficam é
de desorientação e desamparo. O Kaddish, independentemente e acima de
sua origem ou significado textual, é uma ferramenta poderosa de
compartilhar a dor da perda com a comunidade e receber o apoio
necessário para reunir os estilhaços e seguir em frente. É por meio do
Kaddish que a vida se sobrepõe à morte.
Michel Schlesinger é rabino em SP.
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